
Kamaitachi construiu uma carreira sobre uma regra simples: cada canção é um conto. O Acústico Kamaitachi, lançado pela ONErpm em três partes ao longo de setembro de 2025 e reunido em um álbum de 14 faixas e 45 minutos em 26 de setembro, é o primeiro projeto em que essa regra é colocada em dúvida. A proposta não é apenas regravar sucessos com violão. É reposicionar a voz que os canta.
A estrutura ajuda a entender o movimento. As duas primeiras partes, lançadas em 29 de agosto e 12 de setembro, trazem cinco faixas cada, misturando músicas de Homem Torto e de Festa. A versão completa, de 26 de setembro, acrescenta quatro faixas e reorganiza o repertório. A inspiração declarada é o rock dos anos 1990 e 2000, o que desloca o projeto do universo de fantasia para um terreno de memória afetiva e formação musical.
O ponto mais interessante está nas três canções novas. Em Colorindo (Com o Seu Sorriso), o artista cita o Black Sabbath e costura referências a Lana, Morgana, Julieta e Cabelos Arco-Íris. É a primeira vez que o catálogo aponta para dentro de si mesmo como autobiografia, e não apenas como mitologia. Na entrevista à Mídia NINJA, Kamaitachi admite o incômodo: passou anos construindo personagens e deixou de falar sobre si. O acústico existe para corrigir esse desequilíbrio.
O risco do formato é conhecido. Com 14 faixas, o disco pode soar como uma coletânea com roupa nova quando o arranjo não propõe uma leitura diferente da original. A sequência alterna eras sem construir uma dramaturgia própria, e algumas faixas parecem cumprir a função de setlist, não de álbum conceitual. É justamente aí que o projeto perde parte da tensão que fazia o universo de Kamaitachi funcionar.
Ainda assim, o saldo é positivo. O Acústico funciona como documento de passagem, não como retrospectiva fechada. O single seguinte, Fantasia Sombria, de 2026, tem 8 minutos e 42 segundos, bem acima da média do catálogo, e sinaliza que a fase madura não é necessariamente uma fase calma. Para quem acompanha o artista desde 2017, o disco explica de onde ele veio. Para quem chegou agora, é uma porta de entrada mais humana do que o personagem permitia.
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